acabou por sair algo assim…

Novembro 15, 2010

A ausência de posts não é um reflexo dos últimos tempos.

Muito trabalho, novos projectos, novas pessoas, novas situações…

Novo peso, nova forma de olhar a vida, novos receios, menos tempo…

Mas acima de tudo…

um novo sorriso…

Como Dizia o Poeta
Vinicius de Moraes / Toquinho

Quem já passou por essa vida e não viveu
Pode ser mais, mas sabe menos do que eu.

Porque a vida só se dá pra quem se deu
Pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu.

Ah, quem nunca curtiu uma paixão nunca vai ter nada, não.

Nao há mal pior do que a descrença
Mesmo o amor que não compensa é melhor que a solidão.

Abre os teus braços, meu irmão, deixa cair
Pra que somar se a gente pode dividir.

Eu francamente já não quero nem saber
De quem não vai porque tem medo de sofrer.

Ai de quem não rasga o coração, esse não vai ter perdão.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Existem locais que não devemos deixar de visitar.

Como sempre, esta viagem surgiu de impulso, pouco tempo para pensar, pouco tempo para planear.

O coração diz “tens de ir” e a cabeça responde “porque não“?

Cada dia algo de novo para descobrir, a escolha nunca é fácil, mas o tempo e dinheiro disponiveis, são um óptimo tira-teimas.

Trajecto escolhido, meios de transporte seleccionados a medo e a aventura começa.

É um continente novo e só por aí, um sorriso incontrolável, não há expectativas e não poderiam existir pois, não há relato, nem narração completamente capaz de descrever tudo o que fui encontrando.

Aterrei em Marraqueche no ínicio da manhã, ainda a cidade estava a meio gás, eu mesma, com apenas 3 horas de sono e depois de 3 fusos horários diferentes em menos de 24 horas, estava num estado de letargia tal, que demorei garantidamente 2 horas (e um pequeno-almoço) a voltar ao normal.

Manhã quente, o céu ainda tinha a luz do nascer do sol, assim como quem fica com a marca da almofada na bochecha, tudo era cor de barro e amarelo e verde, e as indicações escritas em árabe, e ultrapassagens de burros e bicicletas, ou motorizadas a grande velocidade. E assim é Marrocos!, pensei eu para com os meus botões, mas estava errada, Marrocos é muito mais.

Bastaram poucos quilómetros para perceber que Marrocos também é feito de paisagens de cortar a respiração, com montanhas e planícies (!) capazes de bradicardizar qualquer coração saudável de 28 anos, repleta de pequenas cidades onde tudo se concentra na rua principal, controlada por barreiras policiais, e onde tudo se compra, tudo se vende, tudo se vive.

É também feito de um céu enorme, bem contrastado de perfeitas nuvens, num espectacular jogo com o sol capaz de surpreender a cada curva da estrada que me levou até ao deserto.

E o cheiro? Cheira a terra, cheira a hortelã, cheira a cominhos, cheira a tudo, é tudo mais intenso e genuíno.

De Marraqueche até Merzouga, são mais de 500km, em asfalto bem melhor conservado do que estava à espera, entre 7 a 9 horas de viagem, diz o google maps, mas claro está, sem contar com paragens para casa-de-banho (ou aquilo a que chamavam casa-de-banho e que nem sempre corresponde ao que estamos à espera), para comer, para esticar as pernas, para fotografar, para respirar fundo ou para sentir o ar quente a entranhar-se na pele, assim como o sol e o vento. Muito bom, muito bom mesmo.

Imediatamente antes da paisagem de deserto, temos o Alto-Atlas, sendo a parte mais alta do Atlas, a cordilheira marroquina, desafia qualquer condutor para curvas alucinadas, com camiões e autocarros, a grande velocidade, em sentido contrário e rails de protecção.. nem vê-los. E a vista? de cortar a respiração e distrair qualquer um, o que valeu foi o piloto automático e as inúmeras paragens. É impossível não ficar hipnotisado.  

Final do dia, chegada a Merzouga, último vestígio de civilização antes de sair da estrada e percorrer os últimos quilómetros em caminho de areia, ao volante do carro mais barato (com ar condicionado), que conseguimos alugar.

Jantar, assistir a um espectáculo Berbere e dormir, para acordar, olhar em redor e …

dunas…

dunas…

dunas…

ali estavam, as dunas de Erg-Chebbi, território Berbere, o deserto… o silêncio, a areia quente, o silêncio, o vento, o silêncio, os dromedários, o silêncio, o silêncio….

e à noite? não existe tal coisa como poluição luminosa e jamais conseguirei descrever aquele céu carregado de estrelas que me fez passar horas deitada no chão a admirar.

O deserto embala e canta e faz-nos sentir bem, faz-nos sentir em casa. As palavras pressa e stress não existem, o dia tem horas suficientes e são vividas até ao último segundo.

Pensamento berbere :” o amanhã não existe, apenas o hoje, o agora, pois não sabes o que o deserto te trará, por isso, aproveita o que estás a viver agora e depois logo se vê! ” foi-me ensinado às tantas da noite, num acampamento berbere, no meio do deserto e tenho pensado muito nele.

Depois de algumas (muitas) aventuras, foi altura de regressar a Marraqueche e aos mais de 500km de volta.

Novas paragens, chuva, cheiro de terra molhada, atravessar o Alto-Atlas de noite, Marraqueche à noite, trânsito desenfreado, sem sentidos bem definidos, sem faróis ligados, motas, bicicletas, carros, burros… entregar o carro  e respirar fundo, respirar uma nova realidade.

É tudo novo, muito diferente, é demasiada informação para processar em tão pouco tempo, muito cansaço mas pouca vontade de dormir,  uma sensação fabulosa no peito e um sorriso estúpido nos lábios.

Marraqueche é uma cidade grande, recheada de gente, que adormece tarde e acorda bem cedo com o chamamento para as orações, alto e bom som. É simpática e sabe receber. Os muros da Medina acolhem os souks onde facilmente se perdem horas (eu perderia dias, se os tivesse) a ver, a fotografar e a regatear todo o tipo de produtos, desde carne a joias, adjacente a estes fica a praça Jemaa el Fna onde, durante o dia, se encontram encantadores de serpentes, macacos bailarinos, vendedores de sumo de laranja (uma maravilha por 30 cêntimos) e à noite, barracas onde escolhemos a comida que se encontra exposta e esta é cozinhada na hora. É uma mistura de cheiros, fumo, pessoas (a pé ou de mota ou bicicleta, tipo macdrive) surreal.

E depois há a mesquita, que só podemos espreitar, com todo o respeito que o local exige.

E os cheiros, e o chá marroquino que tantas vezes no foi oferecido, e a comida com cominhos e canela.

Poderia ficar a escrever durante muito mais tempo, mas por muito que me alongue, não vou, certamente, conseguir transmitir o que vi, o que senti, o que aprendi, ficam algumas imagens e o desejo de voltar.

 

Fotos, assim que conseguir respirar algo mais que trabalho

oNE of THis Days… ii

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