maRROcos – sahARA E MARraquEcHe

Setembro 29, 2010

Existem locais que não devemos deixar de visitar.

Como sempre, esta viagem surgiu de impulso, pouco tempo para pensar, pouco tempo para planear.

O coração diz “tens de ir” e a cabeça responde “porque não“?

Cada dia algo de novo para descobrir, a escolha nunca é fácil, mas o tempo e dinheiro disponiveis, são um óptimo tira-teimas.

Trajecto escolhido, meios de transporte seleccionados a medo e a aventura começa.

É um continente novo e só por aí, um sorriso incontrolável, não há expectativas e não poderiam existir pois, não há relato, nem narração completamente capaz de descrever tudo o que fui encontrando.

Aterrei em Marraqueche no ínicio da manhã, ainda a cidade estava a meio gás, eu mesma, com apenas 3 horas de sono e depois de 3 fusos horários diferentes em menos de 24 horas, estava num estado de letargia tal, que demorei garantidamente 2 horas (e um pequeno-almoço) a voltar ao normal.

Manhã quente, o céu ainda tinha a luz do nascer do sol, assim como quem fica com a marca da almofada na bochecha, tudo era cor de barro e amarelo e verde, e as indicações escritas em árabe, e ultrapassagens de burros e bicicletas, ou motorizadas a grande velocidade. E assim é Marrocos!, pensei eu para com os meus botões, mas estava errada, Marrocos é muito mais.

Bastaram poucos quilómetros para perceber que Marrocos também é feito de paisagens de cortar a respiração, com montanhas e planícies (!) capazes de bradicardizar qualquer coração saudável de 28 anos, repleta de pequenas cidades onde tudo se concentra na rua principal, controlada por barreiras policiais, e onde tudo se compra, tudo se vende, tudo se vive.

É também feito de um céu enorme, bem contrastado de perfeitas nuvens, num espectacular jogo com o sol capaz de surpreender a cada curva da estrada que me levou até ao deserto.

E o cheiro? Cheira a terra, cheira a hortelã, cheira a cominhos, cheira a tudo, é tudo mais intenso e genuíno.

De Marraqueche até Merzouga, são mais de 500km, em asfalto bem melhor conservado do que estava à espera, entre 7 a 9 horas de viagem, diz o google maps, mas claro está, sem contar com paragens para casa-de-banho (ou aquilo a que chamavam casa-de-banho e que nem sempre corresponde ao que estamos à espera), para comer, para esticar as pernas, para fotografar, para respirar fundo ou para sentir o ar quente a entranhar-se na pele, assim como o sol e o vento. Muito bom, muito bom mesmo.

Imediatamente antes da paisagem de deserto, temos o Alto-Atlas, sendo a parte mais alta do Atlas, a cordilheira marroquina, desafia qualquer condutor para curvas alucinadas, com camiões e autocarros, a grande velocidade, em sentido contrário e rails de protecção.. nem vê-los. E a vista? de cortar a respiração e distrair qualquer um, o que valeu foi o piloto automático e as inúmeras paragens. É impossível não ficar hipnotisado.  

Final do dia, chegada a Merzouga, último vestígio de civilização antes de sair da estrada e percorrer os últimos quilómetros em caminho de areia, ao volante do carro mais barato (com ar condicionado), que conseguimos alugar.

Jantar, assistir a um espectáculo Berbere e dormir, para acordar, olhar em redor e …

dunas…

dunas…

dunas…

ali estavam, as dunas de Erg-Chebbi, território Berbere, o deserto… o silêncio, a areia quente, o silêncio, o vento, o silêncio, os dromedários, o silêncio, o silêncio….

e à noite? não existe tal coisa como poluição luminosa e jamais conseguirei descrever aquele céu carregado de estrelas que me fez passar horas deitada no chão a admirar.

O deserto embala e canta e faz-nos sentir bem, faz-nos sentir em casa. As palavras pressa e stress não existem, o dia tem horas suficientes e são vividas até ao último segundo.

Pensamento berbere :” o amanhã não existe, apenas o hoje, o agora, pois não sabes o que o deserto te trará, por isso, aproveita o que estás a viver agora e depois logo se vê! ” foi-me ensinado às tantas da noite, num acampamento berbere, no meio do deserto e tenho pensado muito nele.

Depois de algumas (muitas) aventuras, foi altura de regressar a Marraqueche e aos mais de 500km de volta.

Novas paragens, chuva, cheiro de terra molhada, atravessar o Alto-Atlas de noite, Marraqueche à noite, trânsito desenfreado, sem sentidos bem definidos, sem faróis ligados, motas, bicicletas, carros, burros… entregar o carro  e respirar fundo, respirar uma nova realidade.

É tudo novo, muito diferente, é demasiada informação para processar em tão pouco tempo, muito cansaço mas pouca vontade de dormir,  uma sensação fabulosa no peito e um sorriso estúpido nos lábios.

Marraqueche é uma cidade grande, recheada de gente, que adormece tarde e acorda bem cedo com o chamamento para as orações, alto e bom som. É simpática e sabe receber. Os muros da Medina acolhem os souks onde facilmente se perdem horas (eu perderia dias, se os tivesse) a ver, a fotografar e a regatear todo o tipo de produtos, desde carne a joias, adjacente a estes fica a praça Jemaa el Fna onde, durante o dia, se encontram encantadores de serpentes, macacos bailarinos, vendedores de sumo de laranja (uma maravilha por 30 cêntimos) e à noite, barracas onde escolhemos a comida que se encontra exposta e esta é cozinhada na hora. É uma mistura de cheiros, fumo, pessoas (a pé ou de mota ou bicicleta, tipo macdrive) surreal.

E depois há a mesquita, que só podemos espreitar, com todo o respeito que o local exige.

E os cheiros, e o chá marroquino que tantas vezes no foi oferecido, e a comida com cominhos e canela.

Poderia ficar a escrever durante muito mais tempo, mas por muito que me alongue, não vou, certamente, conseguir transmitir o que vi, o que senti, o que aprendi, ficam algumas imagens e o desejo de voltar.

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4 Respostas to “maRROcos – sahARA E MARraquEcHe”

  1. Tiago said

    Adorei o texto. Mas adorei mesmo. “O deserto embala e canta e faz-nos sentir bem, faz-nos sentir em casa.”

    (p.s. Sempre achei que Marraqueche se escrevesse Marraquexe.)

  2. Fernando said

    Fantástico texto, mas acredito que mesmo com essa excelente descrição, nada se compara com a vivência na primeira pessoa…vou ter oportunidade de compravar isso, parto amanhã para Marraqueche 🙂

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